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Os autores dos rituais azuis do REAA Imprimir E-mail


Por Pierre Noel
33° do Supremo Conselho de França


Tradução: Ailton Branco
Oficina de Restauração do REAA

Quem redigiu esses rituais? A questão não pode ter resposta segura. Não sabemos e não saberemos, talvez jamais, quem foram os redatores. Isso não pode impedir que se cogitem hipóteses, baseadas em simples premissas.
Os redatores conheciam a maçonaria habitualmente praticada na França.
Eles tinham familiaridade com a maçonaria britânica ou americana, notadamente aquela praticada nas Lojas do Rito antigo.
Eles dispunham da obra “Três Batidas Distintas” e conheciam suficientemente a língua para traduzi-lo de forma correta.


Enfim, eles teriam interesse em difundir na França uma maçonaria de estilo novo, diferente daquela das Lojas do Grande Oriente de França.
Só podiam atender esses critérios os maçons que tinham vivido no estrangeiro e interessados em se desligar do Grande Oriente de França. É o caso dos “Americanos” que quiseram introduzir em Paris um sistema de 33 graus, que apresentaram como uma forma maçônica mais “universal” que o Rito Francês em 7 graus, praticado no Grande Oriente desde 1786. Para atingirem seus fins, deviam oferecer rituais novos para os três primeiros graus. Porém, eles não existiam na França, pois o primeiro Supremo Conselho do mundo estava em Charleston, sendo necessário deixar para as Grandes Lojas a comunicação dos três graus de base. Foi preciso, por isso, criar os rituais novos. Foi o que fizeram os redatores, indiferentes aos rituais existentes.

Muito habilmente, eles denominaram “antigo” o resultado de sua compilação, como havia feito antes deles, Laurence Dermott, Grande Secretário da Grande Loja anglo-irlandesa desde 1751 e, como ele, classificaram seus rivais de “modernos”. Nos dois casos, a fascinação que exercia toda a afirmação de antiguidade era suficiente para dar ao seu produto uma aura de autenticidade. Mas eles tiveram o cuidado de omitir a reivindicação, “Escocês”, o qual teve sempre sobre os maçons franceses um invencível poder de atração, depois das afirmações do Cavalheiro Ramsay e o aparecimento dos primeiros altos graus.

Pode-se ser mais preciso? O ritual da Tríplice União é datado de 1804, o que significa que ele foi redigido, ou copiado, nesse ano. O copista, que foi ou não, o autor do ritual, deve ter pertencido a essa Loja ou, no mínimo, a uma Loja que partilhasse as mesmas preocupações. Como nada nos permite afirmar que o ritual original foi escrito em 1804, a investigação pode teoricamente, recuar até a data da publicação do TDK, mas as circunstâncias históricas sugerem que sua redação é posterior ao retorno dos “americanos” ao seu país.

Considerando os critérios enunciados acima, três nomes vem imediatamente ao pensamento: Grasse-Tilly, Hacquet e Fondeviolles.
Grasse-Tilly era membro da Contrato Social, à frente do seu departamento para as ilhas. Durante sua estadia em Charleston, freqüentou as Lojas das duas Grande Lojas locais, das quais, uma era do Rito Antigo. De retorno a Paris em julho de 1804, se dedicou, com o apoio de sua Loja-mãe, a fundar a Grande Loja Geral Escocesa, que ele presidiu na ausência de um Grão-Mestre. Ele foi o fundador do Supremo Conselho de França, do qual se tornou o primeiro Grande Comendador e tratou de Potência para Potência com os Oficiais do Grande Oriente. O Tratado de União assegurou-lhe funções importantes, tanto no seio do Grande Oriente de França quanto no Grande Capítulo Geral. Seu papel foi, no entanto, de curta duração, pois se demitiu de sua função de Grande Comendador em 10 de junho de 1806, e sua entrada no exército fez com que retornasse a Paris somente em 1814. Ele não tinha audácia e nem ambição. Teria as qualidades necessárias para redigir os novos rituais? Pode-se duvidar. Nada em sua carreira lhe predispôs à vocação literária. Não passou de um militar sem tropa de envergadura (ele não ultrapassou o grau de chefe de esquadrão) e de um nobre sem recursos, tendo vivido de expedientes. Foi censurado por ter usado a maçonaria para fins pessoais e interesseiros. Tudo isso nada o impede, decerto, mas não o torna provável de um trabalho ingrato e sem brilho.

Germain Hacquet, notário em São Domingos, foi Venerável de uma Loja em Porto Príncipe, filiada à Grande Loja da Pensilvânia. Quando ele foi instalado, em junho de 1802, uma Grande Loja provincial da ilha o escolheu Deputado do Grão-Mestre. Quando chegou na França, em abril de 1804, veio munido de uma patente de Deputado Grande Inspetor que usou para criar no meio das lojas da Tríplice União e de Fênix, fundada por ele em 14 de junho do mesmo ano, um Consistório do Rito de Heredom (chamado Rito de Perfeição, com 25 graus) para a França. Recebido no 33º por Grasse-Tilly, tornando-se Grande Vigilante da Grande Loja Geral Escocesa e depois, durante a Concordata, Grande Oficial de segunda classe do Grande Oriente de França. Em 22 de dezembro de 1804, tornou-se Grande Mestre de Cerimônias do Supremo Conselho, função que exerceu até sua ida para o Supremo Conselho dos Ritos, constituído pelo Grande Oriente em 1815, no qual se tornou o primeiro Grande Comendador. Hacquet ocupou função dirigente nos círculos que viram o nascimento dos rituais azuis do REAA. Se ele não foi o redator, tinha, sem dúvida, as qualidades para fazê-lo.

Jean-Pierre Mongruer de Fondeviolles, proprietário em São Domingos, regressou à França em 1797. Membro do Grande Oriente de França, Rosa-Cruz, fundou a Tríplice União em 25 de setembro de 1801 e depois, em 1804, um Consistório do 32º, graças a uma patente em branco recebida de Kingston, nesse ano. Recebido no 33º por Grasse-Tilly em 24 de outubro de 1804, tornou-se ativo na Grande Loja Geral Escocesa. Durante a resistência de 3 de novembro de 1804, exerceu as funções de Segundo Vigilante, enquanto Hacquet era Primeiro Vigilante. Assistiu à reunião de setembro de 1805 em que recebeu o título de Venerável da Tríplice União Escocesa, da qual se tornou, mais tarde, Venerável de Honra. Participou regularmente das reuniões do Supremo Conselho, até que suas atividades paralelas o constrangeram a se demitir em 1812. As razões dessa demissão são importantes porque permitem uma nova visão das atividades do Supremo Conselho de França, de 1805 a 1812.

Em setembro de 1805, como vimos, o Grande Consistório dos graus 33º e 32º denunciou o tratado de União e decidiu que o Supremo Conselho teria uma existência independente do Grande Oriente de França. Manteve, no entanto, as disposições da Concordata, deixando ao Grande Oriente o direito de conferir os graus até o 18º e de supervisionar os Capítulos. Essas decisões foram seguidas pela eleição de Cambaceres, em 1º de julho de 1806, então, Grão-Mestre adjunto do Grande Oriente desde 13 de dezembro de 1805, nas funções de Grande Comendador, deixadas vagas com a demissão de Grasse-Tilly, em 10 de junho de 1806. Cambaceres foi instalado solenemente em 13 de agosto de 1806. O primeiro ato do Supremo Conselho foi altamente significativo: renuncia à organização de todas as Oficinas de todos os graus e decreta que os graus superiores ao 18° serão conferidos no futuro apenas por ele (decreto de 27 de novembro de 1806).